Título
original: The Lost Sheep Restored
Por J. C. Philpot (1802-1869)
Traduzido,
Adaptado e
Editado por
Silvio Dutra
“Ovelhas perdidas têm sido o meu povo, os seus pastores as fizeram
errar, para os montes as desviaram; de monte para outeiro andaram,
esqueceram-se do lugar do seu repouso.” (Jeremias 50.6)
Deus o Pai, em Suas designações
eternas, Deus o Filho em Sua obra mediadora, e Deus o Espírito Santo em seus
ensinamentos interiores, traçaram uma eterna linha de distinção entre o professante
caiado e a alma viva. Contudo, os "hipócritas em Sião" podem estar
misturados nas igrejas com o povo de Deus; embora possam professar acreditar nas mesmas
doutrinas, contudo há um limite - nunca a ser cruzado - estabelecido entre eles
pela mão do triúno Jeová, uma linha de limite que nem toda a arte ou sabedoria
dos homens nunca pode quebrar.
O filho de Deus tem esse temor
filial em seu coração que o professante nominal cristão não conhece; que tem a
retidão diante de Deus, a integridade, a simplicidade e a sinceridade divina;
que deseja ser justo, que teme estar errado, com aquele anseio de coração para sentir
e experimentar e conhecer "o único Deus verdadeiro e Jesus Cristo a quem ele
enviou" (João 17: 3), que deseja viver dia a dia sob os ensinamentos do
Espírito abençoado, ter aquela humildade de alma e quebrantamento de coração,
aquela ternura de consciência e aqueles outros frutos do Espírito, que de fato
podem ser falsificados e imitados, mas que nunca existem realmente, exceto nos
corações que Deus tocou com Seu dedo.
Portanto, cabe a todos aqueles que Deus tem se agradado
em plantar sobre os muros de Sião como vigias, buscarem as horas de luz e
trevas, e proclamarem quando "a manhã vem, e também a noite" (Isaías
21: 11- 12), para clamarem em voz alta e não pouparem entre o homem honesto e o
ladrão. Os pastores fiéis são chamados a observarem a advertência do Senhor: "Quanto
a vós, ó ovelhas minhas, assim diz o Senhor Deus: Eis que eu julgarei entre ovelhas
e ovelhas, entre carneiros e bodes." (Eze 34:17). Também nunca houve um
período em que os profetas do Senhor fossem mais urgentemente obrigados a separar
o precioso do vil e assim ser manifestado como a boca de Deus (Jer 15:19).
Nos dois versículos que precedem
o texto, e no próprio texto tomado em relação a eles, temos uma descrição pelo
Espírito Santo, falando através de Seu servo Jeremias, da maneira pela qual o
Senhor conduz Seu povo. Encontramos escrito pela caneta inerrante da inspiração
divina, o lugar onde Ele os encontra, a causa que os levou para lá, a maneira
pela qual eles são livrados e o local para o qual eles são eventualmente
trazidos. E, portanto, ao falar com estas palavras, não me confinarei às
palavras do texto, mas o Senhor, ajudando-me, as tomará em conexão com os dois
versículos que imediatamente o precedem. E que o Espírito abençoado condescenda
em nos favorecer com Sua unção e orvalho, sem o qual tudo o que eu falo, e tudo
o que você ouve, será como "água derramada sobre a terra".
Como não há nada como um bom
começo, esforçar-me-ei por tornar o meu terreno bom em primeiro lugar,
afirmando tão claramente e tão decisivamente quanto eu possa quem são as
pessoas das quais estas coisas são faladas. Eles são chamados no texto pela
boca do próprio Deus de, "Meu povo", e eles são aquele povo peculiar
que Deus o Pai escolheu em Cristo antes da criação do mundo, aquela geração
escolhida que Deus o Filho, carrega em sua natureza em união com Ele, redimida
por Seu sangue mais precioso, e aquela nação santa que Deus, o Espírito Santo,
condescende em ensinar, guiar e levar para casa na glória. Esta parte eleita da
raça humana, Deus chama no texto de, "Meu povo", como se Ele dissesse
deles, "Eles são meus por escolha, meus por compra, meus por adoção,
eternamente meus, irreversivelmente meus; apesar do pecado, da morte e do
inferno, meus, apesar da carne, do mundo e do diabo.”
I. Mas,
nossa primeira visão desse povo peculiar estará no lugar onde Deus os encontra.
"Meu povo", diz ele, "são ovelhas perdidas". Eles não se
tornam ovelhas por serem encontrados, nem deixam de ser ovelhas por serem
perdidos. Eram ovelhas eternamente na mente de Deus; e a sua perda não alterou
nem destruiu o seu caráter de ovelha, assim como o vaguear de uma ovelha
literal e naturalmente do aprisco a transforma em uma cabra. Pode ser coxa,
doente ou fraca; pode se afastar por quilômetros do aprisco; sua lã pode ser
rasgada ou sujada com lama, e toda sua aparência tão alterada que o pastor mal
possa reconhecê-la; mas é uma ovelha ainda, e sempre será uma ovelha, enquanto
ela continua a existir. E assim, os eleitos sendo ovelhas eternamente na mente
de Deus, e como tal possuindo uma eterna união com o Filho de Deus, não
poderiam deixar de ser ovelhas ao caírem em Adão, nem suas quedas pessoais, individuais
e transgressões destruiriam seu caráter original inalterável.
Mas, no lugar onde o Senhor o
Espírito as encontra, elas são "ovelhas perdidas", arruinadas,
desfeitas, sem esperança, sem ajuda, sem força, sem sabedoria, sem justiça; perdidas,
de modo a não terem nenhum poder para encontrarem o caminho para a glória; perdidas,
quanto a qualquer expectativa de encontrar aquilo que na criatura Deus possa
olhar com aceitação; perdidas, sem qualquer esperança de chegar à costa
celestial, exceto sob a imediata orientação do Espírito Santo; perdidas, quanto
a qualquer possibilidade de fazer a menor coisa para propiciar o favor de Deus,
ou ganhar um interesse em Seu amor.
Quando Deus, o Espírito Santo,
toma uma alma na mão, assim como os dedos da mão de um homem escreveram uma
sentença de condenação sobre a parede do palácio do rei de Babilônia, assim faz
o Espírito abençoado escrevendo a palavra "Perdido" sobre a
consciência de cada vaso de misericórdia; e quando Ele escreveu esta palavra
com poder sobre as suas consciências, eles ficaram marcados como que por letras
de fogo, de tal modo que a impressão nunca seja apagada, até que seja apagada
pelo sangue expiatório do Mediador.
E assim, nos ensinamentos do
Espírito Santo nas consciências da família de Deus, "perdido, perdido,
perdido" está escrito em seu coração; "perdido, perdido,
perdido", é o grito de seus lábios; "perdido, perdido, perdido",
é o sentimento profundo de sua alma. E nunca se descobriu quem não tivesse o
sentimento "perdido", escrito mais ou menos profundamente sobre seu
coração. E ninguém foi recolhido nos braços do Pastor celestial; achado nas
montanhas e nos outeiros, colocado sobre os Seus ombros, e trazido para casa
com alegria; ninguém foi levado a um encontro espiritual com Jesus, a fim de
desfrutar a comunhão com Ele, que não tivesse suspirado, gemido e chorado sob
um sentimento de seu estado perdido, como um pecador culpado diante de Deus.
Ora, quando a alma foi ensinada pelo Espírito Santo
a sentir-se como para ver e conhecer-se sem forças para livrar-se da ira
vindoura e, por conseguinte, afundada no desânimo, então é o momento em que o
Espírito Santo geralmente dá-lhe alguma descoberta da misericórdia de Deus na
face de Jesus Cristo. Encontramos isso docemente exposto naquele notável
capítulo de Ezequiel 16. O vaso da misericórdia está lá delineado sob a figura
de um bebê recém-nascido, abandonado por sua mãe, e que é assim descrito: "
ninguém se apiedou de ti para te fazer alguma destas coisas, compadecido de ti;
porém foste lançado fora no campo, pelo nojo de ti, no dia em que nasceste."
(Ezequiel 16: 5). Quão abandonada, quão poluída, impotente, e perecendo, tão
miserável como um pária é a alma vivificada. Mas, não é deixada a perecer, pois
assim diz o Redentor amoroso: "Então, passando eu por ti, vi-te, e eis que
o teu tempo era tempo de amores; e estendi sobre ti a minha aba, e cobri a tua
nudez; e dei-te juramento, e entrei num pacto contigo, diz o Senhor Deus, e tu
ficaste sendo minha." (Eze 16: 8)
Parece haver alguma indicação
disso nas últimas palavras do texto: "Eles esqueceram o seu lugar de
repouso", o que implica que essas "ovelhas perdidas" tinham
sido, até certo ponto, encontradas e tiveram algum descanso dado a elas em
Cristo; que o Senhor o Espírito os trouxera, uns por um mais profundo, outros
por um caminho mais superficial, alguns mais e outros menos surpreendentemente,
para encontrar Jesus como seu descanso, de modo que suas almas perdidas, angustiadas
e perturbadas encontraram uma medida de descanso em Cristo, descanso em Seu
sangue, descanso em Sua justiça, descanso na "aliança eterna, ordenada em
todas as coisas e segura" (2 Sam 23: 5).
Mas, o Senhor fala de Seu povo no
texto como tendo esquecido "o seu repouso". Agora, se eles nunca
tivessem conhecido o que era um lugar de repouso, não se poderia dizer que eles
tinham esquecido. E isso, se não estou muito enganado, nos dá uma pista do
significado do texto ao falar do povo de Deus como estando perdido nas
montanhas através da instrumentalidade de falsos pastores. É claro que a sua
perda em primeiro lugar não poderia surgir de guias traiçoeiros, como eles
foram perdidos em seu primeiro pai, Adão, perdidos no ventre onde foram
concebidos em pecado, e perdidos a partir do ventre, de onde eles se
extraviaram falando mentiras. É antes o desgarramento de uma ovelha que havia
sido reunida, do que de um nascido nas montanhas, que nunca tinha conhecido a
voz do bom Pastor; a errância do retrocesso, e não dos mortos no pecado. E
assim, corresponde à parábola da ovelha perdida em Lucas 15: 4-6, que descreve
o caso de um retrocesso; e que corresponde ao grito de penitência de Davi, no
Salmo 119: 176 "Desgarrei-me como uma ovelha perdida, procura o teu
servo".
II. O
Senhor, então, no texto, declara a CAUSA instrumental, das rebeliões e desvios
de Seu povo. Ele a atribui a seus falsos pastores, seus guias enganadores e
enganados, que por ignorância ou malícia os desviaram. "Ovelhas perdidas têm sido o meu povo, os seus pastores as
fizeram errar, para os montes as desviaram; de monte para outeiro andaram,
esqueceram-se do lugar do seu repouso.”
Oh! Que raios de vingança
divina são ameaçados na Palavra de Deus contra falsos ministros - o suficiente
para fazer qualquer homem com uma consciência sensível que se levanta em nome
do Senhor tremer da cabeça aos pés! Que terríveis denúncias da ira de Deus
contra os maus pastores: “Ai do pastor inútil, que abandona o rebanho! a espada
lhe cairá sobre o braço e sobre o olho direito; o seu braço será de todo
mirrado, e o seu olho direito será inteiramente escurecido.” (Zac 11:17); os pastores preguiçosos e
egoístas, que recebem a seguinte palavra do Senhor: “A fraca não
fortalecestes, a doente não curastes, a quebrada não ligastes, a desgarrada não
tornastes a trazer, e a perdida não buscastes; mas dominais sobre elas com
rigor e dureza.” (Eze 34.4).“ “Vivo eu, diz o Senhor Deus, que porquanto as
minhas ovelhas foram entregues à rapina, e as minhas ovelhas vieram a servir de
pasto a todas as feras do campo, por falta de pastor, e os meus pastores não
procuraram as minhas ovelhas, pois se apascentaram a si mesmos, e não
apascentaram as minhas ovelhas” (Eze 34.8).
Mas, se
o povo do Senhor for desviado por estes pastores depois de terem obtido algum
conhecimento de Cristo, podemos estar muito seguros de que os seus guias
traiçoeiros virão a enfrentar a garra da verdade. As doutrinas da graça estavam
em seus lábios, mas o engano e a hipocrisia em seu coração; e assim, sob a
máscara da verdade, insinuaram-se nos afetos, influenciaram o julgamento e
seduziram o coração do povo de Deus. Eles vieram com erros abertos, expuseram
de uma só vez seus sentimentos enganosos, se eles, no início, manifestassem
suas vidas ímpias, as ovelhas ficariam alarmadas e não escutariam sua voz
sedutora. Mas, eles entram no aprisco como verdadeiros pastores, os pastores
divinamente comissionados do rebanho, embora entrem nele apenas para quebrar as
cercas, e espalhar e conduzir as ovelhas ao extravio. Nós, a quem o Senhor
capacita, desmascaramos e suportamos ver alguns desses falsos pastores que vêm
em nome de Cristo, mas que não são ensinados nem enviados por Ele.
1.
Alguns destes falsos pastores levam-nos de lado, edificando-nos em doutrinas,
sem que a alma sinta o doce poder e a eficácia viva da verdade; e assim os
filhos de Deus se afastam dos suspiros e clamam, e gemem pelo Senhor, para
descansar sobre as doutrinas como doutrinas de fato, com a doçura, unção e
poder abençoado e divino sabor dessas doutrinas sendo comunicados e soprados em
seu coração pela boca do próprio Deus.
Agora,
o que quer que leve a alma para longe de seu "lugar de repouso", o
que quer que a afaste do conhecimento experimental do Filho de Deus, tudo o que
a seduz, desviando do poder do Espírito para a forma da letra, fere seriamente,
uma alma viva. Por mais verdadeiras que sejam as doutrinas bíblicas, por mais
habilmente ditas, claramente comprovadas ou eloquentemente aplicadas, porém,
quando usadas pelos ministros da injustiça, como frequentemente são usadas,
edificam a alma em confiança presunçosa e se opõem à obra do Espírito Santo. A
consciência, afasta as ovelhas do poder do Espírito e do paladar das realidades
divinas, como se faz experimentalmente conhecido, na letra morta e na forma
seca. As doutrinas da carta não são senão o esqueleto e os ossos da verdade,
sem que os nervos e a carne subam sobre eles, e a pele que os cobre acima, ou o
sopro do Espírito Santo que respira sobre aqueles que podem viver (Eze 37: 8-9).
Eu apelo
às consciências de alguns aqui presentes, se vocês não foram assim desviados.
Quando
o Senhor começou sua obra em sua alma (eu posso falar por mim mesmo), não havia
uma simplicidade, uma retidão misturada com convicções de pecado e desamparo,
um anseio para conhecer Jesus por Suas próprias manifestações? E quando trazido
a alguma medida de fé e esperança nele, não havia uma confiança sincera e
infantil sobre o Seu sangue e justiça? Mas, alguns de vocês não foram levados
para longe desta simplicidade e sinceridade divina, dessa dependência implícita
e ansiosa pelos ensinamentos interiores do Espírito, em uma profissão de
verdade seca, fria e dura, muito mais adiantada no conhecimento da carta, mas o
frescor, o sabor, a vitalidade e o poder da verdade diminuíram sensivelmente, e
se encontram como se estivessem secos em suas almas? E qual foi a causa
instrumental dessa substituição da "sabedoria dos homens" pelo
"poder de Deus"? Rastreie isso até sua fonte, e geralmente será
encontrado que os falsos pastores foram a causa, que entraram no aprisco, derrubaram
as cercas do temor piedoso, e dirigiram ou atraíram o rebanho para longe sobre
as montanhas estéreis, levando-o da montanha para a colina de doutrinas e
especulações, com especulações humanas de palavras, até que em meio a disputas
e controvérsias as ovelhas esqueceram seu lugar de repouso.
2. Ainda;
outros desses falsos pastores, que vêm vestidos de verdade, trazem consigo um
espírito antinomista (contra a lei de Deus), que primeiro podem esconder, mas
que, depois de um tempo, inspiraram e infundiram na mente de seus ouvintes. Não
são tanto as palavras de um homem como o seu espírito que devemos observar de
perto.
Sempre
que um ministro está sobre um povo, e está pregando-lhes continuamente, ele vai
respirar seu espírito neles, infundirá em suas mentes aquilo com que sua
própria mente está cheia. Um ministro, então, virá entre um povo que declara
piedade vital, com a verdade em seus lábios, com as doutrinas da graça e alguma
demonstração de experiência, e contudo haverá um espírito de leviandade e
descuido em relação a ele, um espírito de adulteração de partes da Palavra de
Deus, de negligenciar as ordenanças de Sua casa, de aliviar o funcionamento do
temor piedoso e terna consciência, e sem negar absolutamente a experiência dos
santos, pois isso seria demasiado desnorteador e poderia prejudicar seu próprio
interesse. Eles desprezarão os suspiros e os clamores de um coração turbado, as
lágrimas, os gemidos e as súplicas da alma vivente. Deixarão de lado estas
coisas como sendo legalidade e escravidão, e clamarão em voz alta pelo que ele
chama de liberdade do evangelho e a inabalável segurança da fé. Quando ele os
tirou de "olhar para dentro de si, e olhar por cima de condições pessoais
e sentimentos", ou seja, de uma religião sentida, divinamente ensinada e
forjada, infundirá em suas mentes a presunção imprudente e endurecida, aquele
licencioso espírito antinomista, que Satanás soprou nele - um espírito tão
diferente do santo tremor e temor divino reverente, tão distinto como o céu do
inferno, ou Cristo de Belial.
As
ovelhas que haviam encontrado algum lugar de repouso em Cristo, que haviam
sentido o sabor de Seu nome como unguento derramado, bebendo gradualmente neste
espírito frouxo, e achando quão adequado é às suas luxúrias e paixões vis,
muitas vezes ficam tão intoxicadas com esse Vinho de Sodoma e estas Uvas de
Gomorra, que "esqueceram o seu lugar de repouso"; e sendo
"afastados nas montanhas", andam "de montanha para colina" em
confiança presunçosa, e talvez caiam em alguns dos penhascos íngremes, até que
o bom Pastor as procure para onde elas foram espalhadas no dia nublado e
escuro.
3.
Outros desses falsos pastores, que se submetem a uma profissão de verdade,
introduzem sabelianos, arianos e outros erros abomináveis, e ainda assim os
envolvem de forma tão encoberta que enganam os incautos.
4. Mas,
há outra classe de falsos pastores de um selo totalmente diferente, que são
grandes zelotes pelos preceitos da Palavra de Deus, e as ordenanças de Sua
casa, mas cujo objetivo é secretamente infundir um espírito de autojustiça -
levar o povo até o que eles chamam de santidade, como se a santidade fosse algo
a ser alcançado pelo cultivo diligente; e assim os retiram de se sentirem como
pobres miseráveis pecadores ao pé da cruz, e os levam a apoiar-se em algo em si mesmos, onde grande
desonra é feita ao Espírito Santo, como Guia da igreja de Deus, e ao Senhor Jesus Cristo, que é a nossa santificação, assim como a nossa justiça. Tudo o que leva o
homem a não descansar ao pé da cruz, no temor piedoso, no temor reverencial e no
tremor sentido da presença de Deus, o que o afasta da comunhão com Jesus, da
contrição e da renúncia, não vem de Deus . Qualquer que seja a linguagem
bíblica que se use, qualquer piedade e santidade que sejam usadas nos traços,
modos e roupas do pregador, qualquer que seja o zelo, a devoção e o fervor que
ele carregue consigo, sim, embora venha como um anjo de luz, ele e sua mensagem
devem ser rejeitados se ele ensinar qualquer coisa que leve a alma para longe
da cruz do Senhor Jesus.
"Se
alguma coisa, é fácil ou difícil, ele ensina, exceto o Cordeiro e Seu
sangue." Mas, nos primeiros dias, antes que a alma seja levada
profundamente ao mistério do pecado e ao mistério da salvação, nada mais cai
facilmente com a autojustiça arraigada de nossos corações do que persuasões
ardentes à santidade dos lábios de um pregador que parece embalsamado em todo o
odor disto, e em nossos olhos não discernidores os vemos revestidos da cabeça
aos pés na perfeição sem pecado.
Mas,
esses pastores ídolos diferem uns dos outros, e em um ponto todos concordam; uma
acusação é feita contra todos eles. "Eles fizeram com que as ovelhas se
extraviassem, e as desviaram para os montes". Eles as afastaram da cruz de
Cristo, longe da simplicidade e da sinceridade divina, longe da ternura da consciência,
longe dos caminhos angustiados e perturbados dos filhos de Deus, longe da
mendicância, da falência e da miséria espiritual, longe de olhar para o Senhor
da vida e da glória como a única esperança, força e justiça de suas almas
necessitadas e nuas.
Nem isto
é tudo: "Eles os desviaram para os montes", os levaram para os montes
estéreis - os montes de Gilboa, onde não há orvalho nem chuva, nem comida nem
abrigo, onde durante o dia a seca os consome, e há a geada de noite. Não os
conduzem ao vale da humildade, no meio das pastagens verdejantes, e junto às
águas tranquilas, que só podem ser encontradas nos vales; mas os desviam sobre
as montanhas de orgulho e autoexaltação, presunção e estéril especulação. E
qual é a consequência? "Eles passaram de montanha para colina" - de
uma esterilidade a outra, vagando, não sabiam onde, insatisfeitos com cada
ponto de onde vinham, mas, ainda incapazes de descer para o vale, tentando
montanha após colina, noção após noção , texto após texto, doutrina após
doutrina, mas, não encontrando descanso e paz em nenhum deles.
As ovelhas vivas que procuram
alimento e pasto, por mais que sejam desviadas por um tempo da simplicidade que
está em Cristo, nunca se alimentam de nada a não ser o que o próprio Espírito
Santo comunica. Embora o filho de Deus possa estar continuamente enredado em
doutrinas várias e estranhas especulações, ainda assim ele nunca descansa em
nada além da doce comunhão com Jesus; nunca fica enfastiada com as
manifestações divinas de misericórdia de sua alma, a elevação da luz do
semblante do Senhor, os sussurros doces e demonstrações de Seu amor eterno e
favor discriminante. Mas, isso acontece continuamente, e creio que tenha
acontecido a alguns nessas cidades que, seduzidos por falsos mestres, a família
viva se desvia, anda de montanha a colina, tentando primeiro uma coisa e depois
outra, buscando descanso e não encontrando; inquietos, perplexos, confusos,
incapazes de se alimentar do que lhes está sendo proposto, incapazes de chegar
às pastagens, onde se deitam e se alimentam.
III. Mas, chegamos à maneira pela qual o Senhor livra
essas ovelhas que foram assim desviadas - a maneira pela qual Ele cumpre a
promessa contida em Ezequiel 34: 10-12: "Assim diz o Senhor Deus: Eis que
eu estou contra os pastores; das suas mãos requererei as minhas ovelhas, e
farei que eles deixem de apascentar as ovelhas, de sorte que não se
apascentarão mais a si mesmos. Livrarei as minhas ovelhas da sua boca, para que
não lhes sirvam mais de pasto. Porque assim diz o Senhor Deus: Eis que eu, eu
mesmo, procurarei as minhas ovelhas, e as buscarei. Como o pastor busca o seu
rebanho, no dia em que está no meio das suas ovelhas dispersas, assim buscarei
as minhas ovelhas. Livrá-las-ei de todos os lugares por onde foram espalhadas,
no dia de nuvens e de escuridão."
Assim, o Senhor diz: "Naqueles dias, e naquele
tempo, diz o Senhor, os filhos de Israel virão, eles e os filhos de Judá
juntamente; andando e chorando virão, e buscarão ao Senhor seu Deus. Acerca de
Sião indagarão, tendo os seus rostos voltados para lá e dizendo: Vinde e
uni-vos ao Senhor num pacto eterno que nunca será esquecido." (Jeremias
50: 4-5)
O Senhor tinha um propósito sábio
e gracioso, permitindo-lhes assim vagar. Ele tinha um fim para conseguir isso.
Ele queria ensinar-lhes o vazio de toda a mera profissão, o nada da criatura, e
a depravação de sua natureza caída. Permitindo-lhes assim vagar, perplexos e
confusos. Ele realizou seu próprio propósito secreto, que era fazê-los enfermar
de homens, desmamar a criatura, quebrar o orgulho de seus corações, mostrar-lhes
o vazio de toda a sua própria sabedoria e força, e afastar os seus olhos de
contemplar a vaidade.
Ele traz, então, convicções
poderosas em suas consciências, e estabelece a linha do julgamento em seus
corações. E isso Ele faz por alguma aflição ou golpe de corte em seus corpos ou
suas famílias, trazendo-os sob um ministério de busca de coração, atirando uma
seta secreta em suas consciências de Sua própria Palavra da verdade, ou
lembrando-lhes à mente deles os sentimentos nos tempos passados, e como eles se
recusaram a se separar deles. Isso produz neles o sentimento descrito em Oseias
2: 7: "Irei e voltarei ao meu primeiro marido, porque então era melhor
para mim do que agora". Há um movimento na alma, um ir adiante de coração,
um retorno do filho apóstata. "Naqueles dias, e naquele tempo, diz o
Senhor, virão os filhos de Israel, eles e os filhos de Judá, indo e chorando,
irão e buscarão ao Senhor seu Deus". "Eles virão chorando, e com
súplicas os guiarei." Jeremias 31: 9. "Levantar-me-ei", disse o
arrependido pródigo, "e vou ter com meu pai" (Lucas 15:18).
Enquanto eles eram enfeitiçados
por seus falsos mestres, e embrulhados em doutrinas secas, não havia choro.
Suspiros e gemidos eram contados como a própria escória da legalidade, que se
encaixavam realmente para iniciantes, mas não para crentes assim estabelecidos.
Enquanto o coração se endurecia pelo engano do pecado, não havia quebrantamento e choro. Ao se inclinarem para
a autojustiça e as obras da criatura, não havia choro. Toda a religião que
brota da carne e permanece na sabedoria do homem deixa o coração não
impressionado. Sem contrição, sem dor, sem humildade, sem lágrimas de tristeza,
sem confissão honesta, sem arrependimento diário, sem gemidos à meia-noite, nem
súplicas secretas no escabelo da misericórdia. Ser encontrado no coração que está
retirado em ilusões agradáveis da carne.
Mas, quando o Senhor "se
levanta para fazer Sua obra, Sua obra estranha, e levar a efeito Seu ato, Seu
estranho ato" - quando "Ele coloca Sua mão novamente pela segunda vez
para recuperar o remanescente do Seu povo e para reunir os dispersos de Judá
dos quatro cantos da terra" - quando, como um pastor, procura Suas ovelhas
nos montes e nas colinas, Ele feriu a sua consciência e fez sentir dor e aflição,
para trazê-los, para voltarem os rostos para Sião: "Oh!", Diz a pobre
alma, sufocada sob essas convicções, "como fui enganado e iludido, como
tenho estado descansando sobre meras doutrinas sem sentir o seu poder, como
negligenciei a oração secreta! Como eu tinha quase esquecido de ler a Palavra
de Deus! Como desprezava a obra da graça na alma, acreditando estar andando na
liberdade, quando eu estava na pior escravidão! Estou pronto para chorar
lágrimas de sangue, que eu estivesse assim desviado pelos falsos pastores sob
os quais me submeti."
Convencido de seu erro, ele vira as costas para os
falsos ministros que o seduziram, e volta seu rosto para Sião. Como lemos,
"Eles perguntarão pelo caminho por Sião, com seus rostos ali". O
apóstolo nos diz o que é vir a Sião. Hebreus 12: 22-24: "Mas tendes
chegado ao Monte Sião, e à cidade do Deus vivo, à Jerusalém celestial, a
miríades de anjos; à universal assembleia e igreja dos primogênitos inscritos
nos céus, e a Deus, o juiz de todos, e aos espíritos dos justos aperfeiçoados; e
a Jesus, o mediador de um novo pacto, e ao sangue da aspersão, que fala melhor
do que o de Abel.". "Desde Sião, a perfeição da formosura. Deus
resplandece." (Salmo 50: 2), pois "ali o Senhor ordenou a bênção, e a
vida para sempre" (Salmo 133: 3). Sião é a sede de todas as bênçãos do
evangelho. "É colocada a salvação para Israel" (Isaías 46:13), o
Cordeiro de Deus está sobre ela (Apo 14: 1), a misericórdia e a glória saem
dela. No virar o rosto, então, para Sião, está implícita a busca de bênçãos do
evangelho. É dito, portanto, "que busquem ao Senhor seu Deus", que só
pode ser encontrado em Sião, Sua morada, Salmo 76: 2, e onde o louvor o espera (Salmo
65: 1).
Assim, eles pedem o caminho a
Sião com seus rostos, porque sem luz e com espírito insignificante, com certeza
absoluta eles nunca chegariam lá. Eles têm que perguntar pelo caminho, passo a
passo, muitas vezes duvidando e temendo se eles estão no caminho. Tendo sido
tantas vezes enganados e iludidos, eles não ousam mais confiar em seus próprios
corações, mas têm de implorar ao Senhor para mostrar-lhes cada centímetro do
caminho. Eles não podem seguir cegamente cada guia presunçoso, mas têm de
clamar ao próprio Senhor para ensinar e conduzir, e vivificá-los no caminho. E,
à medida que vão, choram. Eles lamentam a sua rebelião anterior, os muitos
males que cometeram, a leviandade de espírito que eles têm, a indulgência e
mundanismo de espírito, o orgulho, presunção, hipocrisia, carnalidade, descuido
e obstinação de seu coração. Eles vão e choram de coração partido e espírito quebrantado,
não descansando em suas lágrimas como evidências, mas buscando o Senhor seu
Deus; buscando as manifestações secretas de Sua misericórdia, as visitações de
Seu favor, o "levantamento da luz de Seu semblante"; buscando uma
revelação do amor de Jesus; para conhecê-lo por uma descoberta espiritual de Si
mesmo. Sendo assim, eles não procuram estabelecer a sua própria justiça, eles
não buscam o aplauso do mundo, eles não buscam a boa opinião dos professantes
nominais, eles não buscam os sorrisos dos santos, eles procuram não se tornar
cristãos por seus próprios esforços. Buscam Sua graça, buscam Sua misericórdia,
buscam Seu amor, buscam Sua glória, buscam as doces visitas de Sua presença e
poder, procuram-no, lutando com Ele até que o encontrem como Deus da sua
aliança, que cura todas as suas rebeliões.
E, quando o buscam, dizem:
"Vinde, juntemo-nos ao Senhor, numa aliança perpétua que não será
esquecida". O desejo de alguém que é assim ensinado e conduzido, e
profundamente convencido do vazio e da inutilidade de toda religião que não se
centra no conhecimento experimental do Filho de Deus, é sentir uma união
manifestada com Cristo; para encontrar sua própria alma derramada em comunhão
com Jesus; e, portanto, ele se adianta para juntar-se ao Senhor, para beber em
todo o significado dessas maravilhosas palavras: "Aquele que se une ao
Senhor é um só espírito com ele" (1 Co 6:17). Diz a si mesmo:
"Doutrinas secas flutuando no cérebro não podem me fazer nenhum bem, o
louvor do homem não pode aliviar uma consciência culpada."
"Nada", diz ele, "pode me dar uma paz sólida, uma união manifestada com Cristo,
sentir-me um com Ele, conhecer o poder de Seu amor, a eficácia de Seu
sangue e a manifestação de Sua gloriosa justiça."
"Vinde, unamo-nos ao
Senhor". Isso implica algum poder na criatura para juntar-se ao Senhor?
Não; mas isso implica que, quando o Senhor nos une a Si mesmo, então nos unimos
a Ele; quando o Senhor leva o crente a uma união manifestada com Ele, então há
um salto da alma, uma saída das afeições, uma união com Ele com propósito de
coração, uma crença nele com todos os poderes da mente, e uma solene renúncia,
um afastamento, um pisoteio, uma rejeição de tudo, menos daquilo que está no
poder de Deus, tal como foi dado à alma pelo Espírito Santo.
Não se fala de maneira
presunçosa; "Vinde, unamo-nos ao Senhor". Não indica nenhuma
pretensão ousada sobre o Senhor, como se estivesse agora no caminho de Sião e,
possuindo certas evidências, eles pudessem reivindicar a herança e, por assim
dizer, se apressar e se apossar das bênçãos do evangelho; mas aponta para as
ações da fé viva na alma, que sai, quando levantada e livrada pelo Espírito
abençoado. A vã confiança e avidez imprudente daqueles que estão à vontade em
Sião, é uma coisa muito diferente da fé mansa daqueles que caminham e choram,
pedindo o caminho a Sião, com seus rostos ali, cujos corações são quebrantados
pelo Espírito em contrição e desejo de sentir e provar a doce manifestação do
amor de um Senhor moribundo. Estes, sem presunção ou ousada familiaridade,
podem dizer: "Vinde, unamo-nos ao Senhor", com sentimento em suas
almas dos atos daquela fé viva por meio da qual eles se apegam e se inclinam
sobre Ele como o único suporte entre eles e o inferno.
Não havia pretensões nem uma
ousada familiaridade com a mulher que estendia a mão para tocar a orla da veste
de Jesus, e contudo ela se uniu ao Senhor ao segurar Suas vestes. O toque da fé
viva é uma coisa; a intrusão da ousada familiaridade é outra. Uma criança pode
subir nos joelhos do seu pai; um servo deve manter sua distância.
"Vinde", dizem eles,
com confiança filial, "unamo-nos ao Senhor em uma aliança perpétua";
como querendo sentir o poder daquela aliança eterna manifestada em suas almas;
desejando ver seus nomes escritos no livro da vida; desejando olhar para Aquele
a quem traspassaram, e verem o seu pecado expiado pelo derramamento do Seu
precioso sangue; desejando sentir nas profundezas de seu coração partido seu
interesse na aliança eterna "ordenada em todas as coisas e segura". E
assim, embora nada tenham em si mesmos, senão mendicância, falência, miséria e
nudez; nada por natureza, senão uma massa imunda de tudo o que é repugnante e
detestável aos olhos de Deus, mas desejando encontrar e sentir-se envolvidos no
feixe de vida com o Senhor da vida e da glória, têm sua consciência aspergida
com aquelas gotas amenas do sangue expiatório que o Espírito Santo aplica para
purificá-los de obras mortas e para se alegrarem no Senhor como toda a sua
salvação e todo o seu desejo.
Agora, eu não gostaria de colocar
o caminho que eu tenho fraca e imperfeitamente exposto, como um em que todos os
redimidos caminham sem qualquer variação. Os contornos podem ser os mesmos em
todos, mas o preenchimento pode ser diferente em cada um.
Muitos, por exemplo, não foram
induzidos por falsos pastores, mas estiveram sob ministros sãos desde o início
da obra sobre suas almas. Mas, se não forem iludidos por falsos pastores, eles
escaparam aos enganos e delírios de seus próprios corações? Ou se guardados do
mal e do erro externamente, eles foram preservados interiormente? Aqui todos
estão nivelados; nem um pode se vangloriar de outro. Levando isso em
consideração, vocês não pisaram, cada um na sua medida, nesses caminhos?
Quando o Senhor começou Sua obra
de graça em sua alma, não estava a palavra "perdido" escrita em sua
consciência? Você não carregou esse fardo com você onde quer que você foi?
Sempre que acordou no meio da noite, a palavra “perdido” não o encarou no
rosto? Embora, você possa procurar afogar suas convicções, pode apagar a
palavra “perdido” em seus ouvidos? Sempre que você ia à igreja, a palavra "perdido"
não parecia escrita diante de seus olhos?
E o Senhor não o conduziu a
alguma persuasão de seu interesse salvador no sangue e no amor do Cordeiro e
fez com que, em certa medida, as esperanças e afeições de seu espírito renovado
fluíssem para Ele? Então você encontrou um lugar de repouso e nunca desejou
outro descanso senão o que "permanece para o povo de Deus", até mesmo
uma entrada pela fé na obra consumada de Emanuel. Mas você sempre descansou lá?
Se desviado por falsos guias, ou deixado de lado por seu próprio coração, deixe
a consciência honesta, falando como um monitor fiel no seu seio, testemunhar se
não houve alguma saída secreta do Senhor.
Que erro terrível é negar a
recaída! Que ignorância manifesta do próprio coração de um homem! Como isso
marca um homem como um pervertedor da verdade, e alguém que negocia com o pecado
para o desagrado do Altíssimo! Quem conhece a si mesmo e a idolatria de sua
natureza caída ousa negar que ela retrocede perpetuamente no coração, no lábio
ou na vida? Podemos qualquer um de nós aqui negar que temos nos desviado do
nosso primeiro amor? - desviado da simplicidade devida a Cristo e da piedosa
sinceridade - recuado da reverência e do temor divino - recuado da
espiritualidade e da mente celestial - recuado das profundezas do afeto e
derramar do coração no seio do Senhor? E se não tivermos sido autorizados a
retroceder em pecado aberto, se o Senhor nos guardou, e não nos permitiu ser
lançados no lamaçal, ainda não temos cometido o mal duplo que o Senhor diz do
Seu povo; "Eles me abandonaram, a fonte das águas vivas, e cavaram
cisternas, cisternas quebradas, que não podem reter a água?" (Jer 2:13).
E o que nós colhemos do
retrocesso? - nós colhemos prazer, conforto ou paz? - colhemos sorrisos de
Deus, ou o testemunho solene do Espírito na consciência? Não! Se a consciência
fala em seu peito, o que ela diz? Que cada afastamento do Senhor trouxe aflição
e angústia, para que, tão longe de justificar-se em seu pecado, estivesse
pronto quase a chorar lágrimas de sangue, a ponto de se afastar tão
perversamente do Senhor. Foi por misericórdia de nós que o Senhor não nos
entregou à dureza de coração e à cauterização de consciência, para que não nos
fosse permitido dizer com o Israel de antigamente: "Sou inocente, não
pequei" (Jr 2:35), que Ele nos "levou com choro e súplicas.
Não temos alguns de nós dentro destas paredes (eu
tenho certeza que eu tenho para um) que foram obrigados a "ir e
chorar", e dizer ao Senhor um conto piedoso de retrocesso; como nos afastamos
de Seu temor, e pecamos contra Ele, como estamos dispostos a tomar Seu jugo
sobre nós, e andar em Seus preceitos? Não fomos forçados a dizer a ele que
fomos desobedientes e teimosos, imundos e vis, e Ele não nos levou, em certa
medida, a "virar os nossos rostos para Sião" - para virar as costas a
todos os falsos ministros, a todos os pastores ídolos, e a toda a força e
sabedoria, e justiça e vontade da criatura, e nos deu alguma simplicidade,
retidão e integridade de coração e consciência, por meio dos quais temos virado
nosso rosto para Sião, procurando uma bênção que venha de Sião, à procura da
graça, à procura da glória? "Assim eu também te enfraquecerei, ferindo-te
e assolando-te, por causa dos teus pecados", diz o Senhor em Miqueias 6:13,
aludindo à sensação de doença produzida por uma ferida.
E essas feridas em nossa
consciência não nos fizeram, à nossa medida, doentes do mundo, doentes da
igreja professante, doentes de hipócritas, doentes de nossas rebeliões, doentes
de tudo menos da Palavra de Deus revelada com poder, doentes de todos menos do
sangue e do amor do Redentor, de todos os ensinamentos, mas não dos
ensinamentos do Espírito Santo, de toda a companhia, menos da companhia dos
filhos de Deus? Você pode dizer tanto? Que você se voltou de tudo somente para
Cristo, e para Ele crucificado? Que se afastou de todas as doutrinas, menos das
que se centram no sangue do Cordeiro? Que você se afastou da "caridade
universal" e da "filantropia geral", como substitutos do poder
da piedade vital (embora você deseje amar e servir seus semelhantes como
homens), e que suas afeições espirituais são para com Deus e Seu povo? E tem
havido em sua alma qualquer sentimento como Rute teve quando ela disse:
"Seu povo será o meu povo, e seu Deus, meu Deus?" Qualquer doce
resposta em seu seio à voz do Senhor: "Meu filho, dá-me o teu
coração?" "Toma, Senhor, tudo o que tenho e sou!" Algum lançar-se
ao pé da cruz, e ali implorar ao Senhor da vida e da glória para falar de paz à
sua alma?
Ora, isto, creio eu, é a maneira
pela qual o Senhor conduz mais ou menos as almas de Seus filhos. Não é dito de
fato, como Ele nos conduzirá ao conhecimento de Si mesmo, seja por um caminho
mais longo, ou por um caminho mais curto do que outros de Seus filhos, seja por
coisas terríveis em justiça, ou por um modo menos angustiante; mas Ele
certamente trará todo o Seu povo mais cedo ou mais tarde para nada ter - para
deixar de lado a sua própria justiça como trapos imundos; mais cedo ou mais
tarde, para obedecer a esse preceito: "Saia do meio deles, e seja
separado, e não toque a coisa imunda". Mais cedo ou mais tarde, o povo
peculiar terá de andar nos caminhos da tentação e do sofrimento; e mais cedo ou
mais tarde será levado em doce comunhão com o Senhor da vida e da glória, para
ser "satisfeito", como Naftali, "com graça e cheio com a bênção
do Senhor."
Esta religião é o que desejo
pregar; para viver e morrer. Pois não há outra que possa satisfazer uma alma
vivificada.
Aquele que não está interessado
na eterna eleição de Deus Pai, no sangue expiatório e na justiça justificadora de
Deus, no Filho, na obra e no testemunho de Deus, no Espírito Santo, seja qual
for o seu nome, seita, denominação ou profissão; seja qual for a sua conduta
exterior, as doutrinas que professa, ou o credo em que assina o seu nome, ele
morrerá como Esaú morreu, como Balaão morreu, como Saul morreu, como Judas e
Aitofel morreram. Ele nunca verá o Rei em Sua beleza, nunca verá a terra
distante, nunca verá a nova Jerusalém, nem o sangue da aspersão, "que fala
coisas melhores do que o sangue de Abel". Mas toda alma viva que aprendeu
com sentimento sua condição perdida - que conheceu algo de repouso em Cristo -
que virou as costas para o mundo e para a igreja professante, e foi chorando em
Sião - em cujo coração Deus, o Espírito Santo implantou esses desejos solenes e
(se eu posso usar a expressão) essas solenes determinações sob o ensino divino
- não uma determinação de livre arbítrio, mas a determinação interior de graça
fortalecida pelo Espírito de Deus "para unir-se ao Senhor em um pacto
perpétuo que nunca será esquecido" - para que ele viva em Jesus e morra em Jesus -
para que ele sinta Seu poder, experimente Seu amor, conheça Seu sangue, tal
alma, como o Israel do passado, será levada com segurança através deste deserto
árido, será levada através deste vale de lágrimas e levada a gozar de
felicidade e glória eternas na presença daquele que constitui como
bem-aventurados seus redimidos. Cada alma pobre, provada, tentada, será trazida
para o gozo pessoal de Cristo aqui embaixo e de Cristo nas alturas, de modo a
desfrutar de um antegozo do céu aqui, e depois banhar-se no oceano de
felicidade infinita.
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