Título original: The Falling Rain and the Budding Earth
Por J. C. Philpot (1802-1869)
Traduzido,
Adaptado e
Editado por
Silvio Dutra
"Porque, assim como desce a chuva e a neve dos céus, e para lá
não tornam, mas regam a terra, e a fazem produzir, e brotar, e dar semente ao
semeador, e pão ao que come, assim será a minha palavra, que sair da minha boca;
ela não voltará para mim vazia, antes fará o que me apraz, e prosperará naquilo
para que a enviei." (Isaías 55: 10-11)
Desejo
três coisas esta noite. Primeiro, que esta capela fosse maior para acomodar as
pessoas que vieram ouvir. Em segundo lugar, que o Senhor preencha minha alma
com vida, luz, liberdade e amor, e me permita pregar o evangelho com o Espírito
Santo enviado do céu. E em terceiro lugar, que Ele acompanhe a palavra com um
poder divino para o seu coração, e a sele com seu próprio testemunho vivo em
sua consciência.
Meu
primeiro desejo é claramente impossível de ser concedido, portanto, você deve acomodar-se
com um pouco de aglomeração; mas se tivermos os dois últimos cumpridos, não nos
teremos encontrado em vão, pois se o Senhor não operar, falarei e vocês ouvirão
para pouco propósito real. Que sejamos então, capazes de levantar nossos
corações ao Senhor, para que Ele esteja conosco, a fim de nos abençoar, para
que nos faça bem em nome do Senhor Jesus.
Deus
falou grandes coisas na Escritura sobre a sua palavra. Lemos que Ele "a
engrandeceu acima de tudo o mais"; isto é, exaltou sua verdade e
fidelidade em revelar e manter sua palavra acima de todas as suas outras perfeições
manifestadas. Todas as coisas na natureza e na graça dependem desta Palavra.
Por ela veio a própria criação. "Por meio da fé entendemos que os mundos
foram moldados pela palavra de Deus, de modo que as coisas que se veem não
foram feitas das coisas que aparecem" (Heb 11. 3).
Pela
mesma palavra vem a preservação, como Pedro nos diz "Mas os céus e a
terra, que são agora, pela mesma palavra, são guardados para o fogo, no dia do
juízo e da perdição dos ímpios" (2 Pedro 3. 7).
Pela
mesma palavra a criação sobrenatural também é efetuada na regeneração da alma,
em Cristo Jesus. "De sua própria vontade, ele nos gerou com a palavra da
verdade" (Tiago 1: 18).
Pela
mesma palavra vem o ferimento; porque "a palavra de Deus é viva e poderosa
e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, penetrando até a divisão
da alma e do espírito, e das articulações e da medula, e é apta para discernir
os pensamentos e intenções do coração" (Heb 4.12).
Pela
palavra, também, vem a cura. "Ele enviou a sua palavra e curou-os, e
libertou-os de suas destruições."
Em nosso texto, encontramos o
Senhor ainda falando de sua palavra de forma muito elevada, e ilustrando-o por
uma figura muito doce e abençoada. Esta figura, eu preciso apenas lembrá-lo, é a
da chuva e neve do céu, com seus efeitos fertilizantes na terra. Ao
esforçar-me, pois pelo fato de o Senhor me dar força e habilidade para abrir a
mente e o significado do Espírito nas palavras que temos diante de nós, não
adotarei nenhuma divisão formal de meu assunto, mas farei como se fosse um
comentário corrente sobre o texto, explicando a figura natural, e mostrando sua
realização na palavra de sua graça.
A figura que o Senhor faz uso aqui
é muito simples e óbvia para a compreensão da menor capacidade; extremamente
adequada e, quando espiritualmente percebida, é um meio doce e abençoado. Ele
compara a sua palavra, seja como sendo revelada nas Escrituras ou falada pela
boca de seus servos, à chuva e neve que caem do céu e os efeitos que elas
produzem na terra, e os compara aos efeitos e frutos que são produzidos por sua
palavra aplicada à alma.
I. A primeira ideia principal da
figura natural é a descida da CHUVA – que "vem do céu".
Nisto podemos admirar a sabedoria
da maravilhosa provisão pela qual a chuva é armazenada, naquilo que o próprio
Senhor, em Jó chama de "as comportas do céu". Quantas toneladas de
água estão suspensas nas nuvens que flutuam sobre nossas cabeças! Que seria a
terra, senão uma rocha seca e estéril, a não ser que a fertilidade fosse
armazenada nesses reservatórios flutuantes?
"Dos teus caminhos", isto
é, das nuvens, das trilhas, por assim dizer, de suas rodas de carros no céu)
"caem gordura, caem sobre os pastos do deserto, e os pequenos montes se
regozijam de todos os lados".
A soberania de sua descida é outra característica
marcante da chuva natural. Deus desafia Jó para parar "as comportas do
céu" quando abertas, e ele pode ter sido desafiado a abri-las quando fechadas.
Quaisquer que sejam os truques de malabarismo que os "fabricantes de
chuva" possam praticar, nenhum mágico pode levantar sua varinha para o céu
e ordenar que as nuvens se quebrem em chuveiros sobre a terra. Ela cai como
Deus quer que caia. A soberania de Deus é exibida tanto no tempo quanto em
qualquer outra forma. "Além disso, retive de vós a chuva, quando ainda
faltavam três meses para a ceifa; e fiz que chovesse sobre uma cidade, e que
não chovesse sobre outra cidade; sobre um campo choveu, mas o outro, sobre o
qual não choveu, secou-se." (Amós 4. 7). Assim também se dá com a palavra
de Deus, pois como o exercício da soberania divina faz a chuva cair ou não; assim,
no exercício da mesma soberania, Deus abençoa a palavra a um e não a outro.
Ainda, a conveniência da chuva
para a terra é uma característica muito marcante na provisão de Deus, como a
sabedoria e a soberania deste maravilhoso artifício. E podemos observar a
admirável adaptação dos meios ao fim, e do fim aos meios. Quão adequada é a
chuva para o solo, e quão adequado é o solo para a chuva! Sem a terra, a chuva
seria um desperdício. Sem um solo para absorvê-la, a chuva causaria um dilúvio.
Sem chuva, a terra seria inútil. Assim se dá com a palavra de Deus e a alma do
homem. Se não houvesse a alma do homem para ser salva, a palavra de Deus seria
inútil; e se não houvesse nenhuma palavra de Deus, a alma do homem não teria
valor.
O que a chuva é para o solo, o
que o solo é para a chuva, a palavra de Deus é para a alma, e a alma para a
palavra de Deus. Esta aptidão mútua atravessa toda a obra da graça. Assim, há
uma adequação entre a mente angustiada e a promessa; entre a consciência
culpada e o sangue de Jesus; entre a alma nua e a justiça de Cristo; entre a
fome espiritual e o pão da vida.
Mais uma vez; não há nenhuma
causa de aquisição na terra, nenhum mérito nela para obter a chuva do céu. A
terra não se fertiliza primeiramente, e assim atrai as nuvens para descarregar sobre
ela seus tesouros. Não, quanto mais tempo a chuva está suspensa, mais seca fica
a terra e mais longe da fertilidade. Portanto, não há nada no homem para obter
ou merecer a graça de Deus; não, quanto mais tempo estamos sem ela, como a
terra seca sem chuva, menos merecemos; porque o aumento do tempo traz dureza
crescente, como o aumento da seca traz aumento da esterilidade.
A chuva, também, vem livremente,
copiosamente, a contragosto, nem perguntando à terra quando deve cair, nem
quando deve parar. Vem para baixo como um dom gratuito de Deus. Ela cai quando
necessário, preservando um equilíbrio exato entre a seca e a precipitação da
chuva. Em todas estas particularidades há uma analogia entre a chuva do céu e a
palavra da graça de Deus.
II. Mas, o Senhor fala no texto
de "NEVE", assim como de chuva. A neve é apenas chuva congelada, contudo há certos
pontos de diferença que fazem dela um emblema impressionante da Palavra de Deus.
A neve cai no inverno de um céu
escuro e sombrio, portanto há uma experiência invernal de alma quando os céus
são espalhados com nuvens escuras e ameaçadoras.
A neve congela em sua queda cada
objeto vivo. Assim, as repreensões cortantes da Palavra de Deus arrefecem com
medo e alarmam a consciência em que caem. Acaso a palavra do Senhor, pelo
infante Samuel, não congelou Eli com temor, e
por Natã esfriou Davi, e por Isaías a alma de Ezequias?
E como a neve é penetrante! Assim, as repreensões de Deus
penetram nos próprios pontos vitais. "Ele dá a neve como lã, espalha a geada como
cinza, e lança o seu gelo em pedaços; quem pode resistir ao seu frio?"
(Salmo 147.16,17). Mas, além dessas propriedades invernais e perfurantes, a
neve possui dois efeitos benéficos. Protege a terra como com um manto das
rigorosas geadas e ventos penetrantes, preservando a vegetação viva. Assim, as
arrebatadoras repreensões da Palavra de Deus são uma verdadeira proteção para a
alma; elas preservam a vida terna daquelas terríveis explosões de desagrado
eterno que um dia varrerão sobre a face da terra. As repreensões de Deus
trouxeram Davi ao arrependimento, Ezequias à submissão, Pedro a chorar amargamente,
e o corinto incestuoso à tristeza de Deus. A repreensão do olhar do Salvador
cobriu Pedro com o manto do arrependimento. Por falta deste manto, a explosão
do desagrado de Deus congelou a alma nua de Judas no desespero.
Mas, da neve é dito que ela fertiliza o solo em
que cai e repousa. Quando derretida pelos raios do sol, é dito que
marca sua presença anterior por fecundidade aumentada. Assim também sucede
espiritualmente; Ezequias ficou gelado com a tempestade de neve que acompanhava
as palavras do profeta: "Ponha em ordem a sua casa, pois morrerás e não
viverás". Mas, quando a neve que jazia pesadamente sobre sua alma foi
derretida pelos raios da misericórdia, uma colheita de frutos brotou do solo fertilizado.
De agora em diante, caminharia suavemente todos os seus anos na amargura de sua
alma. A neve tinha suavizado e fertilizado o solo, e uma colheita de humildade
e louvor brotou. Em sua canção de louvor, ele reconheceu o benefício da
tempestade de neve. "Por estas coisas vivem os homens, e em todas estas
coisas está a vida do meu espírito" (Isaías 38. 16). Este foi seu
reconhecimento do benefício e bênção do céu invernal.
Você nunca teve razão para bendizer
a Deus por toda convicção que cortou sua justiça de criatura? Por cada
reprovação, cada dolorosa sensação de culpa, cada angústia que lhe deixou com
horror? As pessoas clamam por conforto, como se a Palavra de Deus não contivesse
nada além de promessas, e como se estivessem sempre em uma situação de
necessidade de consolações. Era uma caixa de remédios pobres, aquela que tinha
apenas tônicos e tinturas agradáveis. Era um pobre jardineiro aquele que não
podia usar mais ferramentas do que a água. "Fogo e granizo, neve e
vapores, vento tempestuoso" - todos são iguais "cumprindo a sua
palavra" (Salmo 148.8), e todos, todos conspiram para cantar para o seu
louvor.
III. Mas, lemos, "ela não
retorna para lá", isto é, não na mesma forma. Ela retorna por evaporação,
mas não sob a forma de chuva e neve. Depois de uma chuva abundante, ou queda
pesada de neve, a terra em pouco tempo está seca. Para onde é que tudo se foi?
Uma parte caiu no solo, mas não
em todos; uma parte é novamente evaporada, para descarregar uma vez mais suas
generosas bênçãos sobre a terra. Mas, não retorna na mesma forma precisa em que
desceu, na forma material grosseira de neve e chuva. É exalada em uma forma
mais sutil, mais fina. Assim, quando o Senhor se agrada de arrefecer, e fecundar
a alma com a neve de suas repreensões, ou com a água da chuva de suas
promessas, sua palavra de convicção ou sua de consolação não lhe volta na mesma
forma, senão em outra; há o retorno de louvor, gratidão, amor, ação de graças;
um fruto no coração, nos lábios e na vida.
E como o sol tira estes vapores
invisíveis, e é a causa desta colheita de frutos, assim faz o Sol de justiça na
produção dos afetos do coração, e dos frutos que são para o louvor e a glória
de Deus.
Mas, você não desejou às vezes,
que pudesse fazer algum retorno para Deus? Quer dizer, algum retorno em espécie?
Na verdade, isso é o que eu posso chamar de desejo natural da mente, que vemos
emitido em uma variedade de "formas supersticiosas". Por que os
homens construíram esplêndidas catedrais? Por que milhares foram em
peregrinação a elas? Por que muitos homens em nossos dias contribuem com grandes
somas para objetivos religiosos? Não é esta a fonte secreta de muito do que é
chamado serviço religioso? Sua linguagem é "Devemos fazer algo por Deus, do
mesmo modo que Deus tem feito tanto por nós; se Ele nos deu dinheiro, nós lhe
devolveremos dinheiro.
Isso faz com que a chuva e a neve
voltem ao céu como se fossem do mesmo tipo - o que Deus não quer, e não aceita,
quando assim se cede à superstição e à justiça própria. Muitos concederão
dinheiro em túmulos, cruzes, janelas, monumentos, igrejas e restaurações da
arquitetura chamada medieval, que abominam a verdade e perseguem os santos.
Assim, os fariseus de antigamente que crucificaram Cristo e apedrejaram Estêvão
construíram os túmulos dos profetas.
Mas, no que respeita a nós mesmos,
que não nos entregamos a tais superstições; por vezes sua mente não pensou que
você poderia fazer mais por Deus no caminho do serviço ativo? Mas qual é a
verdadeira renda que Deus quer que você Lhe dê, e que Ele procura, se Ele
abençoou sua alma?
Gratidão, louvor, ação de graças,
fé, esperança, amor e paciência - os frutos e as graças de seu Espírito. Amor e
afeição também, aos seus santos; bondade e liberalidade aos pobres membros de
seu corpo, visitá-los na doença, simpatizar com eles em apuros, orar por eles e
andar com eles no intercâmbio de cada ofício amigável.
IV. A característica principal da
chuva e da neve mencionadas no texto, é que "molham a terra." Este é
o seu principal objetivo, pois para este propósito foram especialmente providas,
e para este fim são continuamente enviadas. A água é o grande solvente, e como
os poros de todas as produções vegetais são demasiado diminutos para absorver a
matéria sólida, ela deve ser dissolvida antes que possa se tornar alimento para
as plantas.
Pela chuva e neve derretida o
solo é suavizado, de modo a tornar-se uma cama de sementes em que o grão pode
inchar, germinar e crescer. (Nota do tradutor: os sais minerais, dissolvidos pela
água, dos quais as plantas se alimentam são partículas tão diminutas que
comparadas com uma bactéria, são mais de mil vezes menores. Assim, as raízes e
os demais poros das plantas que absorvem nutrientes, inclusive em suas folhas,
não dão passagem a patógenos, de modo a impedir que sejam contaminadas e se
tornem prejudiciais à saúde do homem e dos demais serves vivos que delas se
alimentam. Deus em sua grande sabedoria e poder é o autor da referida
provisão.)
Todos nós sabemos que uma terra
dura, estéril seria inútil sem chuva. Tal é a alma do homem sem a palavra da
graça de Deus - dura, seca, estéril - um desperdício, um deserto inútil. O
Senhor prometeu que as almas do seu povo serão "como um jardim
regado" e, que "a sua palavra cairá como a chuva e destilará como o
orvalho". É a palavra da graça de Deus que suaviza o coração e dissolve a
alma. Como na natureza os torrões ficam cada vez mais endurecidos, quanto mais
tempo a seca continua! O fazendeiro pode quebrá-los com os arados, mas não pode amaciá-los. Deixe
os chuveiros caírem suavemente, penetrando nos poros desses torrões ásperos e secos,
até que eles se
desmoronam ao toque mais fraco!
Assim sucede com a alma e a palavra
da graça de Deus. Até que esta caia, não há derretimento de alma, maciez de
coração, ou quebrantamento de espírito.
V. Mas, a chuva e a neve não
apenas regam a terra, mas também "fazem brotar e fertilizar". De
fato, sem chuva, especialmente em climas quentes, não há fruto produzido. Um homem
pode ter uma profissão consistente de religião, pode ter um credo bem ordenado,
pode ser membro de uma igreja cristã, pode atender a todas as ordenanças e
deveres, pode procurar enquadrar sua vida e andar de acordo com os preceitos da
Palavra de Deus, pode ter sua oração familiar e oração particular, pode ser um
bom marido, pai e amigo, pode ser liberal e amável para a causa de Deus e do
povo, e ainda assim, com tudo isso não dar fruto. Isto é produzido apenas pela
palavra da graça de Deus caindo no coração, regando e suavizando-o. Sem isso
não há um sentimento gracioso, nem um desejo espiritual, nem um só pensamento,
nem um só afeto celestial.
Mas, a neve é útil aqui, assim como a chuva. Por
ela o solo é feito poroso e aberto. Pelas explosões arrebatadoras do desgosto de
Deus, as repreensões de sua boca, as ameaças de sua lei e os terrores de uma consciência
culpada, as larvas e as lagartas do orgulho e da justiça própria morrem de fome,
e uma preparação é feita para receber a misericórdia e a paz.
E assim, quando o Sol da justiça
começa a brilhar sobre a alma, quando o inverno acabou, quando os dias quentes
da primavera e os chuveiros da misericórdia caem sobre o coração, então produz
frutos. Ele produz fé em que a verdade é recebida no amor por ela; traz
esperança que se agarra ao Senhor Jesus Cristo, seu sangue, obediência e
salvação, como a hera se enlaça ao carvalho; produz amor que se apega ao Senhor
com pleno propósito de coração; e traz paciência para suportar aflições e
contentamento sob os vários tratos de Deus na providência ou na graça. De fato,
o verdadeiro fruto do evangelho não é produzido de outra maneira.
Um homem pode ser repreendido,
ameaçado, amarrado e açoitado, mas você nunca pode por estes meios produzir o fruto
do evangelho. Você pode produzir uma obediência monástica; pode provocar uma
espécie de religião esfomeada, que se seca logo que nasceu; você pode se arrastar
para o serviço forçado de um escravo acorrentado, mas para ter os frutos do
Espírito produzidos na alma; fé, esperança, amor, humildade, gratidão,
resignação, alegria divina, oração e todas as outras graças glorificadoras de
Deus, você deve ter a chuva e a neve descendo do céu.
Quantas vezes, talvez, tenhamos tentado por
autocultura produzir tais frutos! Nós não poderíamos fazê-lo; com todas as
nossas melhores tentativas o resultado foi, como a igreja do Velho Testamento
reclamou: "Concebemos nós, e tivemos dores de parto, mas isso foi como se tivéssemos
dado à luz o vento; livramento não trouxemos à terra; nem nasceram moradores do
mundo." (Isaías 26.18). Nenhuma progênie viva foi criada.
Tentamos, talvez; como muitos
têm, para nos tornar santos, vigiado nossos olhos, nossos ouvidos, nossas
línguas; lido vários capítulos todos os dias da Palavra de Deus; ficado por
longo tempo sobre nossos joelhos; lido um livro na segunda-feira, outro na
terça-feira, e outro na quarta-feira; e assim tentamos trabalhar uma espécie de
santidade em nossas próprias almas.
Eu tentei há muitos anos, orar por
cerca de uma hora; e tenho vergonha de dizer que ficava feliz em ouvir o
relógio bater. O que era isso, a não ser uma regra monástica, autoimposta, para
agradar a Deus pelo comprimento de minhas orações?
E, no entanto, eu devia saber
melhor, porque quando o Senhor se agradou em tocar minha consciência com seu
dedo, Ele me deu um espírito notável de
graça e súplica; eu não precisava de uma regra monástica. Mas, tudo foi para
trazer para fora do coração algo do qual eu poderia dizer “Agora eu tenho
religião, agora tenho algo com que Deus se agrada, agora tenho avançado em
santidade, agora tenho dado um passo mais perto de Deus.”
Mas o que é toda esta lamentável autossantidade, senão
aquilo que Bunyan chama? Por que, antes de podermos olhar para a santidade, ela
se foi como um sonho da noite. "Será como figo que amadurece antes do
verão, que, vendo-o alguém, e mal tomando-o na mão, o engole." (Isaías 28.4).
Quanto a qualquer satisfação real, é "como quando um homem faminto sonha,
e eis que ele come, mas desperta, e sua alma está vazia; ou, como quando um
homem sedento sonha, e eis que bebe, mas desperta, e eis que ele está fraco, e
sua alma ainda está sedenta".
Mas, o nosso texto fala da terra
"brotando", bem como produzindo frutos. Na graça, como na natureza
existem estágios de progresso; a semente, o broto, e o caule têm graus de
crescimento. Em muitos, as graças do Espírito são, senão em broto; em alguns, a
fé, por exemplo, como o açafrão fora da neve, é mal visível; nós podemos apenas
discerni-la brotando do manto frio de convicções.
O próprio Senhor diz
"Primeiro, o broto", e isto pode estar escondido sob a neve invernal.
Os cristãos não são feitos em um dia. Eles não são como a aboboreira de Jonas,
que "subiu em uma noite, e pereceu na outra noite." Em alguns membros
da família do Senhor, a graça é apenas um broto tenro que se injeta na vida.
Este pode ser o caso com alguns aqui esta noite. Eles não podem dizer positivamente:
"Eu sei em quem tenho crido". "Meu amado é meu, e eu sou
dele."
Há uma sondagem em sua
consciência quando usam a língua da segurança. Também não podem dizer com
firmeza: "sinto-me confiante de que minha esperança nunca falhará".
Mas, se não puderem usar estas
palavras, contudo podem ter os brotos da vida celestial. O broto, você sabe, é
geralmente muito tenro; dificilmente pode suportar o vento frio, e quando está prestes a expandir seu crescimento,
lá vem talvez, uma queda de neve, ou um céu gelado, e fecha-o imediatamente.
Tais são os primeiros batimentos da vida divina na alma. Há neles uma ternura
peculiar; eles fecham à primeira explosão de friagem, e só se abrem quando os
raios quentes do sol irradiam sobre eles. Aqueles que têm apenas marcas fracas
de graça sabem bem, que é só em certas épocas que a fé, a esperança e o amor emergem,
e mostram suas cabeças acima do solo escuro. Às vezes, em oração secreta, às
vezes, em ouvir a palavra pregada, às vezes, em conversa com um amigo cristão,
há uma vinda de uma doce confiança no Senhor.
VI. Mas,
qual é o grande objetivo do Criador todo-sábio em enviar chuva e neve sobre a
terra natural? "Para que dê semente ao semeador, e pão ao faminto".
Aqui são mencionados dois objetivos para os quais são dadas chuva e neve. Nós
não só precisamos de grãos para serem moídos em pão para alimentar o corpo, mas
para fornecer semente também para semear o solo para um ano futuro. Sob as
influências fertilizantes da neve e da chuva, a terra produz tão abundantemente
que não só fornece pão para o presente, mas também semente para o futuro.
Vamos
ver o significado espiritual disso. Primeiro, temos uma distinção feita aqui,
entre o faminto e o semeador. O "faminto" é o filho de Deus que come
o pão da vida, como disse o Senhor: "Aquele que se alimenta de mim, viverá
por mim" (João 6.57). Sua provisão é o melhor do trigo, e ele é um daqueles
a quem o Senhor diz "Comam, amigos, bebam, sim, bebam abundantemente, ó
amados" (Cant 5.1).
Veja os
elos desta maravilhosa cadeia. Chuva e neve são enviadas para fertilizar a
terra; é assim feito para produzir e brotar, mas seu produto é empregado de
duas maneiras diferentes. Há semente para o semeador, e pão para o faminto.
Agora, veja a analogia espiritual. A palavra que cai do seu divino Autor sobre
o coração, vindo, como Ele diz, da sua boca, quer na neve da convicção, quer na
chuva da consolação, fecunda a alma. Ela brota e produz os frutos e as graças
do Espírito. "Cristo, a esperança da glória, é formado no coração."
Ela é alimentada pela fé como o pão da vida.
Mas,
não somente há este pão para o faminto, há também semente para o semeador. Por
"o semeador", podemos entender um servo de Cristo, um ministro do
evangelho, de acordo com a parábola conhecida, "um semeador saiu para
semear" (Mateus 13.3). Disso se deduz, que como o trigo no grão difere do trigo
no pão, assim a semente do "semeador" difere do pão do "faminto".
O semeador deve ter pão para comer, mas ele tem sementes na cesta, bem como o
pão na despensa. Há muitos famintos, mas poucos semeadores. Quando o Senhor se
agrada em levantar um homem e o envia para sua vinha, Ele não só lhe dá pão
para comer para si mesmo, mas também coloca sementes em sua cesta para os
outros. Por esta "semente" podemos entender as porções da verdade
divina que são aplicadas à sua alma, que brotam de tempos em tempos em seu
coração em meditação e oração, os textos e passagens que lhe são especialmente
dados em benefício do povo de Deus.
Este é um ponto que os cristãos
particularmente deveriam considerar. Quantos são os que, por Deus ter feito
alguma coisa por suas almas, pensam que devem imediatamente se apressar no
ministério, como se, por terem sido feito cristãos, o Senhor os fizesse
ministros. Ele pode lhes ter dado pão como famintos; porém colocou uma cesta de
sementes em volta dos seus ombros, e reservou-a para que vocês a usem sempre no
trabalho de semeadores?
Abre-lhes as escrituras, dá-lhes
ideias espirituais, traz para fora de seus corações vida e sentimento, dando-lhes
"palavras aceitáveis" (Eclesiastes 12.10), e lhes permitindo espalharem
com uma mão hábil e liberal a semente da Palavra? E tenha em mente que o pão é
uma coisa e a semente outra. Não semeamos pão, mas trigo.
Se você é um ministro, então deve ter algo além de
uma boa experiência. Você deve ter um dom espiritual como Timóteo; e quando
puser a sua cesta de sementes para pisar entre os sulcos, deve ter o bom grão
sadio posto nela pelo Senhor da sega. O mesmo doador benéfico que faz "a
terra produzir e brotar para dar pão ao faminto", não está despreocupado
com o semeador. Mas, ninguém inveje aquele que carrega a cesta de sementes. Não
é tarefa fácil caminhar para cima e para baixo nos sulcos, "Não é antes
assim: quando já tem nivelado a sua superfície, então espalha o endro, semeia o
cominho, lança o trigo a eito, a cevada no lugar determinado e a espelta na
margem? Pois o seu Deus o instrui devidamente e o ensina." (Isaías 28. 25,
26).
Nenhum homem precisa querer
carregar a cesta de sementes, ter todos os olhos fixados nele, e todas as
flechas inflamadas do maligno apontadas para ele. Todo aquele que é designado
para espalhar a palavra da vida terá muitas coisas para prová-lo, e fazê-lo
desejar repetidamente que nunca tivesse sido empurrado para um cargo tão árduo.
No que diz respeito à facilidade e conforto, é muito mais agradável comer pão
no banco, do que levantar-se com a cesta de sementes no púlpito. Foi a minha
experiência nos momentos sombrios e difíceis, uma e outra vez invejar alguém e
todo mundo que não tem que se levantar e pregar. Às vezes, um sentimento de
minha indignidade e incapacidade; às vezes, uma repugnância natural para
aparecer em público; às vezes, morte e escuridão da mente; às vezes, um
sentimento de minha inutilidade geral; às vezes, poderosas tentações e ardentes
dardos e às vezes, as perseguições que eu tenho suportado, fizeram-me sentir a
sorte de um pregador como sendo a mais dura de todas. Há apenas duas épocas
quando sinto satisfação em carregar a cesta de sementes - 1. Quando tiver pão
para comer, e trigo para semear e 2. quando ouço falar de casos em que eu não
carreguei a cesta de sementes em vão.
VII.
Mas, passemos a considerar a promessa que Deus deu em relação à sua própria
palavra: "Assim será a minha palavra que sai da minha boca, e ela não
retornará para mim vazia". Que bênção é que todo o sucesso seja de Deus!
Às vezes, meu coração sente dor em pensar; “aqui estou trabalhando sob uma
mente provada e um corpo fraco e cansado, tentando trazer algo que pode ser
feito uma bênção para a família de Deus”. Seja uma tentação ou não, não posso
dizer, mas às vezes parece como se eu trabalhei em vão. As pessoas parecem
duras e mortas; e para julgar a partir do sentimento presente, pouca bênção
real parece acompanhar a palavra. Acho que deve ser uma tentação, pois depois
ouvi falar das bênçãos recebidas, quando pensei que não poderia haver nenhuma.
Mas, que misericórdia é, que não temos nada a ver com o assunto; que toda a
bênção é de Deus! Não é o que eu posso tentar fazer, ou o trabalho que posso
tentar realizar. Se eu pregasse com a eloquência de um anjo, se Deus não
abençoasse a palavra, toda a eloquência que eu pudesse exercer seria em vão! Como isso tira a carga do homem, e coloca
sobre os Ombros que suportam o mundo!
Ele
diz: "Assim será a minha palavra que sai da minha boca". Ela será tão
soberana, tão livre, tão adequada quanto a chuva e a neve que descem do céu. Um
ministro não pode mais mandar o Senhor abençoar a sua palavra para esta ou
aquela alma, do que pode ir para o exterior, e dizer: "Nuvens, nuvens,
derramem chuva neste campo particular". Ele pode, e de fato deve orar para
a bênção, mas comandá-la, ele não pode. O soberano bom prazer de Deus dá-lhe
como, quando e onde Ele quiser.
"Assim será a minha palavra, que sair da minha boca; ela não
voltará para mim vazia, antes fará o que me apraz, e prosperará naquilo para
que a enviei." "Não retornará para mim
vazia", isto é, desprovido do propósito que eu tenho projetado para
realizar por meio dela. Aqueles cujo coração está no trabalho se queixarão às
vezes - “Eu trabalhei em vão, e gastei minha força para nada. Tentei dirigir-me
à consciência das pessoas, mas em vão, seus corações são tão duros como
pederneiras; não receberão meu testemunho.”
Ministros podem queixar-se assim,
cujo desejo da alma é o bem do povo, e como os profetas de antigamente fizeram
antes deles. Ouvintes também, em uma semelhante descrença, podem dizer
"Qual é o uso que há para mim em ouvir? Nenhuma bênção, nenhum poder,
nenhuma vida, nenhum sentimento produzem as palavras na minha alma; por que
preciso ouvir? Posso ficar em casa hoje.” Assim, ministros e ouvintes muitas
vezes penduram suas cabeças porque tão pouco bem visível parece ocorrer pela
palavra pregada. Mas, o Senhor ainda diz: "Não voltará para mim vazia".
Poucos são salvos, portanto poucos são abençoados. Mas, alguns são. O Senhor
pela sua palavra, ainda vivifica, livra, conforta, fortalece e encoraja sua
própria família. É a própria promessa de Deus, que não pode mentir, para que a
sua palavra não volte para Ele vazia. Ela voltará a Ele aqui em gratidão, e
daqui em diante, em um rendimento eterno de louvor.
Este é um encorajamento para os
ministros continuarem a pregar, por meio do mau relato e pelo bom relato, que a
própria palavra de Deus não retornará a Ele vazia, mas fará o que quiser, e
prosperará naquilo para o que foi enviada. O Senhor tem uma determinada obra
para levar adiante pela palavra pregada nos corações de seu povo, e essa obra Ele
realizará por ela. Assim, descobrimos que a palavra pregada é atendida com
vários efeitos; o próprio sermão, ou mesmo uma frase em um sermão produzirá
efeitos opostos; e ainda, ambos são de Deus. Por exemplo, haverá alguma
experiência traçada em harmonia com a palavra de Deus, que virá com uma bênção
para quem passou por ela, que deve consolar e encorajar especialmente sua alma.
Mas, para uma pessoa sentada ao lado dele no mesmo banco, ela virá como ferindo
e produzindo convicção. Chuva para um e neve para o outro.
Ou alguma doce manifestação do
Senhor Jesus Cristo deve ser falada, e várias partes da Escritura trazidas para
prová-lo como algo necessário para ser experimentado. Para aquele que o tem
desfrutado, haverá um doce avivamento da obra de Deus, e um novo acender da
misericórdia, bondade e amor de Cristo à sua alma. Mas, virá com convicção a
outro "Como se algo estranho lhe estivesse acontecendo." Isto parece
cortá-lo, trabalhando convicção em sua alma, enviando-o para casa com um fardo,
levantando um grito em seu coração; faz-lhe sentir que está ansioso, inquieto,
até que Cristo se agrade em revelar-se à sua alma. Assim, a mesma palavra
produzirá o que pode parecer efeitos opostos, mas ambos são de Deus, ambos são uma
bênção.
Ou, talvez, você pode estar em
algum laço secreto, e mal sabe como entrou nisso; a armadilha tinha sido
colocada tão astutamente, que você caiu nela antes que estivesse ciente. Vocês irão para ouvir a Palavra, e o
ministro é levado a falar daquele laço em que foram enredados. Agora está
aberto a você, pois vê como Satanás o colocou, e como foi enredado nisto.
Assim, a palavra será usada para tirá-los do laço, fazer-lhes confessar ao
Senhor como foram enredados, buscar a Sua misericórdia perdoadora e, no devido
tempo, experimentar Sua graça libertadora.
Ou, você pode ter tido uma
verdadeira obra de graça sobre a sua alma; Jesus Cristo, o fundamento, pode ter
sido colocado justamente em sua consciência, contudo a madeira, o feno e o
restolho podem ter sido construídos em cima dele e você pode ter ido para a
facilidade carnal, em segurança vã, e adormeceu em Sião.
Mas, neste estado você pode ir e
ouvir, como pode ter pensado até mesmo acidentalmente, um determinado ministro;
você pode ouvir uma religião doutrinária exposta, uma epístola de fé descrita,
e começar a tremer; pois uma convicção secreta é fechada em sua consciência. Você
pode ir passo a passo com a descrição, já que a julga verdadeira, como ele
declara. Mas, essa epístola, essa confiança doutrinária não trouxe qualquer paz
à sua consciência, nunca lhe deu liberdade de acesso a Deus, nunca quebrou
ídolos em pedaços, nunca lhe livrou de tentação, porém sob a cobertura desta
profissão suave e fácil, você pode ser indulgente com o pecado, caminhar
folgadamente e dar uma rédea aos males de seu coração. Um espírito antinomiano
(contra a Lei de Deus), você encontra, rastejando, secretamente, sobre você.
Este ópio, pouco a pouco, lhe tinha
adormecido, e sob a sua influência você tem dito em seus sonhos: “Está tudo bem;
eu sei que, em tempos passados, tenho sentido a bondade e a misericórdia de
Deus; e sei também que tenho me afastado, afrouxado na oração, me ligado muito às
coisas do mundo, negligenciado sua Palavra, e não tenho sido tão estrito como
eu costumava ser em minha caminhada geral e conversação, mas, (agora vendo o
ópio funcionando) isto não altera meu estado eterno, nem afeta meu interesse em
Cristo.” Você pode ter vindo com este torpor antinomiano sobre você, para
sonhar no banco da igreja com sua condição estupefata. Mas, uma palavra do
púlpito de repente o agita; "um intérprete" surge para interpretar
seu sonho, e mostrar-lhe o estado miserável da alma em que você caiu. Enquanto
você escuta as palavras se aprofundando com poder em sua consciência, a
angústia e dificuldade enchem sua mente.
Ou, você pode ter sido muito
fraco nas coisas de Deus, caindo em um espírito mundano, entre companheiros que
podem estar trazendo à sua alma triste injúria, e através deles ser enredado em
tentações das quais não tem poder para livrar-se. Você
vem à igreja e ouve estas tentações descritas, nas quais pode ter pensado que
nenhum filho de Deus jamais foi enredado nelas; não, não poderia acreditar que
qualquer um com a graça de Deus poderia ter sentido o poder do pecado como você
o tem sentido. Deus faz disso o meio de libertar sua alma dessa armadilha.
Ou, você pode ter sido enredado
em autojustiça, desprezando o povo provado de Deus, desprezando sua família afligida,
não conhecendo em si mesmo o caminho da tribulação. Você vem para ouvir, mas a
convicção de seus defeitos pode ser fechada em sua consciência, e enviá-lo gemendo para
casa. Através dessa ferida em sua consciência, todo um exército de terrores
pode inundar sua alma, e colocá-lo a procurar e examinar o fundamento de sua
religião, e levá-lo a rolar em cima de sua cama em agonia de mente, implorando
a Deus para ter misericórdia de você.
Ou, você pode ter vindo com um
fardo pesado, não vendo qualquer coisa, como a graça em sua alma, atribulado em
mente, deprimido em espírito, assediado pelo diabo, e desprezado por professantes
mundanos. Você vem para ouvir, seu estado e caso são descritos, a Palavra de
Deus é aplicada a você, o conforto é dito à sua alma, e seu coração é quebrantado
por um sentimento da bondade e misericórdia de Deus.
A promessa, então, não falha -
"Ela deve realizar o que eu quiser". Deus conhece nesta congregação o
coração de todos; qual é a sua experiência, quais são os seus desejos, o que
procuram, e como estão enredados ou tentados. Ele sabe tudo e pode, se for da sua
graciosa vontade, aplicar a palavra a cada um como for necessário. Os
ministros, em sua maioria, pouco sabem o que fazem. Eles se levantam para
pregar; eles vêm orando, e vão para casa implorando ao Senhor para abençoar a
palavra, mas não sabem que flechas entraram na consciência, que convicções transpassaram
a alma, ou que conforto e consolo foram administrados; tudo isso é deixado na
escuridão.
Mas, onde houver um trabalho
real, sólido e bem feito, isto brotará mais cedo ou mais tarde para a glória de
Deus, pois, cumprirá tudo o que tem proposto. Se Deus colocou um homem para
cima, nenhum homem pode derrubá-lo, e se Deus o derrubar, nenhum homem pode levantá-lo.
Se Deus enviou a Sua palavra para fazer uma determinada obra, ela prosperará na
coisa para a qual a enviou. Se enviada para a convicção, prosperará; se for
consolação, prosperará; se para o incentivo, prosperará; se para a libertação,
prosperará; se para tirar, prosperará; se para vestir, prosperará; se para
ferir, prosperará; se para curar, prosperará. Veja como o Senhor toma todo o
assunto em suas próprias mãos!
É uma misericórdia indescritível
para os pregadores e os ouvintes, que o Senhor tem se compromissado, por assim
dizer, pela sua própria promessa de que Sua palavra prosperará na coisa para a
qual a envia. Se não fosse por isso, como poderia me levantar diante de vocês
esta noite com alguma esperança de haver lucro para suas almas? Se fosse deixado
a mim fazer uma impressão divina, duradoura e espiritual em seu coração, que
esperança eu teria de realizá-la?
Posso talvez, se me atrever,
tocar em seus sentimentos naturais; posso, se minha consciência me permitir,
tentar trabalhar em suas paixões carnais; e, se possuísse a eloquência natural,
eu poderia transformar este lugar em teatro, eu mesmo em ator, e vocês em
espectadores chorosos. Mas, isso seria "a chuva e a neve do céu?"
Isso seria "a palavra que sai da boca de Deus?" Será que isso
redundará em uma colheita de "justiça e louvor brotando diante de todas as
nações"?
Mas, como seria doloroso que eu
tivesse vindo e falado a vocês esta noite, e nenhuma bênção acompanhasse a
palavra; nada que resista à última trombeta; que a palavra de meus lábios, em
vez de cair como a chuva e a neve sobre o campo, tivesse caído como chuveiros
sobre a calçada, sem entrada nem penetração, secada em poucos minutos, e tudo
deixado duro, frio e pedregoso como antes!
Mas, você vai dizer: "Qual é
a bênção que você quer trazer com a palavra pregada?"
Vou dizer-lhe. Ter a obra da graça
iniciada, prosseguida ou fortalecida, para ser humilhado na poeira da
auto-humilhação, ter um coração quebrantado e um espírito contrito, ter
manifestações da misericórdia e do amor de Deus para ver a beleza, a bem-aventurança,
a graça e a glória que há em Cristo Jesus; ter uma doce persuasão de nosso
interesse salvador no sangue e obediência de Emanuel, para ser separado no
coração e no espírito, da afeição ao mundo; lamentar os males da nossa natureza;
ser guardado de todo caminho, trabalho e palavra perversos; ter uma consciência
terna e um espírito vigilante, que ora; e ter as afeições no céu, onde Jesus
está sentado à direita de Deus.
E, além destes frutos interiores,
viver e professar o evangelho; ser cristão, não apenas de boca e língua, e por somente
ouvir a verdade e não praticá-la, mas em todos os setores da vida, como
senhores e servos, maridos e esposas, filhos e pais; manifestar a graça de Deus em nosso comércio,
negócios, ocupação ou profissão, porém situados, porém colocados para manifestar
a graça de Deus e render-lhe os frutos da justiça, que são por Jesus Cristo
para o seu louvor e glória.
Eu creio, que as bênçãos sólidas
sempre produzirão esses frutos sólidos, produzirão uma colheita no coração,
lábios e vida, pois onde esta colheita não é, em alguma medida, produzida, bem
podemos dizer que tal religião é vã.